13 de junho de 2017

QUATRO FOLHETOS - POR ADERALDO LUCIANO


Quatro folhetos escolhidos por Aderaldo Luciano


O cordel brasileiro, a forma poética criada por Leandro Gomes de Barros, escreve um percurso histórico que se confunde com a República. No final do séc. XIX, Leandro cria o sistema que o definirá como pai do cordel. Todas as modalidades poéticas açambarcadas no cordel saíram do condão poético leandrino, inclusive as marcas gráficas que o definirão: o acróstico, a exortação, a invocação, a intercalação de estrofes, as três formas (epopeia, lírica e drama). A República vai se construindo e Leandro abandona as histórias de reis, donzelas e princesas, passa a criticar os costumes e lança o olhar crítico sobre nossa primeira revolução industrial, sem se afastar da política, defendendo o direito autoral, contaminado com a liberdade de expressão que se inaugura. Hoje, todos que escrevem cordel e se consideram poetas dessa senda, deveriam conhecer sua obra e reverenciar seus feitos, respeitando a tradição e dialogando com seus pares atuais. Diante desse quadro aponto quatro seguidores que merecem nosso olhar:


Medeiros Braga Braga, nascido em Nazarezinho, na Paraíba do Norte, vem desenvolvendo seu próprio sistema cordelístico, marcado pela formação política, pelo veio social mais engajado, trazendo para o cordel os temas políticos mais ligado às lutas sociais, às primeiras tentativas de criação de sociedades autossustentáveis, aos embates de classes e resistência dos pobres às investidas das elites. É o caso desse fato narrado em O Massacre Dos Trabalhadores do Sítio Caldeirão. Estruturada pela visão do beato José Lourenço, de Pilões de Dentro, no Brejo da Paraíba, a comunidade do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto obtém a bênção do Pe. Cícero para receber romeiros e abraçar os que quiserem fortalecer a irmandade messiânica no cariri cearense. Com a morte do Pe. Cícero, as terras são reivindicadas por fazendeiros e uma verdadeira guerra é empreendida aos trabalhadores, culminando com o bombardeio das terras, da lavoura e dos viventes. O beato foge para Pernambuco e o sonho da comunidade é desfeito. A história não se esgota no folheto e pede aprofundamento nos relatos históricos.

Allan Sales, nascido no Crato, no Ceará, mas radicado no Recife, onde, assim como Leandro, estreou sua pena poética, elegeu os temas políticos, a sátira política, a crítica pedagógica e o caminho ecológico como sua senda particular. Músico e cantador, aproveita o talento musical para dialogar com as marcas musicais do povo contidas na cantoria, no maracatu, no coco, no baião. Esse tema O Brasil Tem Tributo A Prestar À Matriz Africana Brasileira é um mote decassílabo desenvolvido em doze voltas, doze estrofes no estilo martelo, pertencente ao ritual estrófico da cantoria nordestina. Como o tema diz, é um relato crítico sobre as origens de nosso encanto religioso e sócio-cultural, centrado na participação africana, cuja matriz espraiou-se de norte a sul do país, marcada pelo elemento escravizado que nos fez herdar seus rituais, sua culinária, seus jogos, sua religião, mas também fez brotar todos os males sociais, nunca resolvidos e muitas vezes mais cultuados entre as elites culturais brasileiras. Como no caso do Caldeirão, de Medeiros Braga, o tema complexo exigirá viagens críticas mais agudas fora do folheto.

Eduardo Macedo, nascido em Fortaleza, em O Jangadeiro Voador, narra a lenda de Beijupirá, o valente guerreiro que domou as velas, as ondas, o mar e o vento, singrou a eternidade para realizar com as próprias mãos e o próprio corpo a travessia entre matéria e aura, entre natureza e poesia. Apresentando a saga do povo tremembé, tapuia de raiz, Macedo trabalha suas estrofes com maestria galgando degrau a degrau, como sói ser o cordel, percebendo o verso sem quebras, a acentuação bem orquestrada, como se o vento fosse seu consultor e o próprio Justiniano seu guia. Mas o leitor encontrará a história de amor entre o herói e Jandira, sua linda flor pequena, raptada pelo Vento, no sincretismo mais envolvente, remanescente das antigas epopeias clássicas, como a Eneida (Eneias e Éolo, o Deus do Vento) ou Os Lusíadas (Vasco da Gama e as procelas anunciadas pelo Velho do Restelo). Como os dois anteriores, a narrativa solicita um pouco mais de esforço histórico do leitor, funcionando como obra introdutória a nossas lendas mais autóctones.

Varneci Nascimento, baiano de Banzaê, referência do cordel baseado em São Paulo, nos apresenta em A Peleja De Aloncio Com Dezinho a página testemunhal de uma manifestação poética, pautada pelo improviso, mas, ao contrário de outras formas, anunciada durante o evento conhecido como "batalhão", um trabalho de mutirão para ajudar um sitiante com dificuldades em preparar suas terras para o plantio. Magnífica reconstrução poética, verdadeiro ensaio etnográfico, importantíssima página para os estudos culturais das comunidades rurais nordestinas, essa obra contém brilhantes construções estróficas, nas quais aparecem, logo no início, a consciência de um narrador conhecedor dos elementos teóricos da literatura, trazendo as diferenças entre narrar e descrever, mas refletindo sobre a impossibilidade do texto puro. Aliás o texto de Varneci,por ser uma peleja, contém elementos do drama, mas encontra um narrador e distribui formas líricas com brilhantismo. Da mesma forma, como nos três folhetos anteriores, o leitor é convocado a sair de seu centro e partir para a busca mais profunda, extra-folheto. 

Esses quatro senhores, Medeiros Braga, Allan Salles, Eduardo Macedo e Varneci Nascimento são herdeiros de nossa forma poética mais genuína, brasileira por gênese, universal por vocação, o cordel. Vivam os poetas! Perpetue-se a poesia! Permaneça o cordel, brasileiro!

Aderaldo Luciano é Professor, poeta, escritor e músico. Doutor e mestre em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além da sua produção poética, dedica-se à pesquisa e crítica do cordel brasileiro. 


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