13 de junho de 2017

A FANTÁSTICA PELEJA ENTRE BODE IOIÔ E BOI MANSINHO


"Boi Mansinho ― Eu sou o dito Mansinho,
Boi do meu Padrinho “Ciço”.
Sou dócil que nem cordeiro,
Nunca causei rebuliço,
Não dou trabalho a vaqueiro
Nem sou rês de dar sumiço.

Bode Ioiô ― Eu sou o Bode Ioiô,
Mais fino pai-de-chiqueiro.
Sou vadio, sou boêmio,
Mulherengo e cachaceiro.
Pelas ruas da cidade
Perambulo o dia inteiro.

BM ― Pois vá logo me dizendo,
Bode, se tomou cachaça,
Pois pelejar com pinguço
É coisa que não tem graça.
Cantador que canta bêbado
Suja seu nome na praça.

BI ― Se não tem o que dizer
Não venha falar besteira.
Pois foi bebendo e fumando
Pela Praça do Ferreira
Que eu ganhei uma eleição
De forma honesta e ordeira."

Bode Ioiô e Boi Mansinho são, certamente, as “personalidades animais” mais presentes na memória e na história do povo cearense. Contemporâneos e oriundos da mesma realidade sertaneja, o touro mestiço de guzerá e o caprino de traços da variedade alpina entrecruzaram suas existências em torno da figura do industrial ipuense Delmiro Gouveia, que, enquanto presenteava Padre Cícero com o reprodutor bovino, em Juazeiro do Norte, representava no Brasil a firma inglesa Rossbach Brazil Company, que adquiriu o bode quando da sua chegada em Fortaleza.

Ioiô, que assim ficou conhecido por “subir e descer” todos os dias da Praia do Peixe ao Centro da capital, emigrara a Fortaleza com um grupo de retirantes que fugia da Seca do 15. Popularizou-se pela sua sociabilidade e conquistou a simpatia dos fortalezenses, garantindo livre trânsito pelas ruas da cidade. Tomador de cachaça e apreciador de charutos, vivia em meio à boemia, nos bares e serenatas de então, sendo tão querido e conhecido que chegou a ser eleito como vereador mais votado nas eleições municipais de 1922. Morto em 1931, foi empalhado e posteriormente doado ao acervo do Museu do Ceará. Hoje, é símbolo da irreverência e espirituosidade cearenses.

Boi Mansinho foi um touro zebuíno de extrema docilidade que viveu no Sítio Baixa Dantas, numa propriedade arrendada pelo beato José Lourenço, amigo de Padre Cícero Romão Batista e líder popular que fundaria, em 1926, a comunidade do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto. No período de grande agitação política pós Sedição de Juazeiro, teve seu nome envolvido com supostos episódios de fanatismo religioso. Em decorrência disto, em 1921 foi mandado abater em meio aos populares pelo braço direito do Padre, o Dr. Floro Bartolomeu, como demonstração de civilidade e em atendimento à opinião pública nacional.

Folheto convencional, 11 x 16 cm, com 32 páginas. Tupynanquim Editora.

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