14 de agosto de 2017

A BESTA-FERA-ANHANGÁ


Mais recente cordel de Eduardo Macedo, um poema que trata da situação política do Brasil contemporâneo​ por meio de alegorias. Será lançado na II Feira do Cordel Brasileiro, que ocorrerá na Caixa Cultural entre os dias 17 e 20 de agosto.

A BESTA-FERA-ANHANGÁ

Eu vou contar uma história
Que aconteceu no Brasil,
Onde uma matança inglória
Houve sem lança ou fuzil:
Artes duma besta-fera
Que habitava uma cratera
N'alma da gente mais vil.

Deu-se no século XXI,
No seu segundo decênio,
Quando o país melhorava
Depois de meio milênio
Submerso na iniquidade,
Sem ter possibilidade
De alcançar o oxigênio.
...

No globo o que se falava
Era que o Brasil agora
Tinha voz e vez conforme
Outros gigantes de fora.
Nos tornamos respeitados;
Deixamos de ser coitados
Conforme fomos outrora.

Mas aí veio o pior:
Enquanto levava o povo
Sua vida, não notava
Que alguém incubava um ovo
Cujo embrião peçonhento
Só aguardava o momento
De sujeitá-lo de novo.

Uma raça de energúmenos,
Movida por truculência,
Que infesta as terras brasis
Com inépcia e virulência
Desde a época colonial,
Achou que seu cabedal
Passava por ingerência.

Eram seres infelizes,
Que não se consideravam
Autênticos brasileiros
E por demais desprezavam
Sua raça mestiçada,
Sua estirpe acaboclada
Que os séculos lhes legaram.

Ao passo que, muito menos,
Eram quem queriam ser:
Os verdadeiros senhores
Da cangalha do poder.
Eram por estes usados
Para manter seus reinados,
Seus impérios, a saber.
...

Nisto deu-se um grande golpe
No peito dos brasileiros.
De início muitos não viram
Descerem de seus poleiros
Para se apossar de tudo
O abutre carrancudo
Com os demais carniceiros.

Mas enquanto estes bicavam
Cada qual o seu bocado,
Gestava-se um anhangá
Com trinta peitos dum lado,
Filho do cio da cadela,
Num ovo posto por ela
Por mil fascistas galado.

Besta fera polifágica
De apetite insaciável.
Devoradora de tudo:
Da carniça impalatável
Ao filé da carne humana.
Uma assombração profana
Das profundas do insondável.

As garras da besta-fera,
Eram grandes à direita,
Bem como a musculatura
Que à destra era melhor feita.
Tudo um lado era maior,
Confessando, ao derredor,
Os sinais da sua seita.
...

11 de agosto de 2017

II FEIRA DO CORDEL BRASILEIRO - PROGRAMAÇÃO



Programação da II Feira do Cordel Brasileiro

17 de agosto (Quinta-feira)
Teatro
14h – Abertura Oficial da II Feira do Cordel Brasileiro – Recital dos Mestres
14h40min – “Bagunça dos Brinquedos” – Apresentação teatral com texto adaptado do cordel de Mariane Bigio e participação especial das crianças da cidade de Pio IX/PI

Palco Cego Aderaldo
15h – Forró de raiz: Cecília do Acordeom (Redenção/CE)
15h30min – Rafael Brito e a Rabecaria (Fortaleza/CE)
16h – Raul Poeta (Juazeiro do Norte/CE)
16h30min – Olegário Alfredo e Ricardo Evangelista (Belo Horizonte/MG)
17h – Tempo de Brincar (Sorocaba/SP)
18h – Geraldo Amâncio e Guilherme Nobre (Fortaleza/CE)
19h – Mestre Valdeck de Garanhuns (Guararema/SP)

18 de agosto (Sexta-feira)
Teatro
14h – Palestra “Receitando Cordel”
Palestrantes: Paola Torres (Fortaleza/CE), Sávio Pinheiro (Várzea Alegre/CE) e Breno de Holanda (Fortaleza/CE)
Mediador: Assis Almeida (Fortaleza/CE)

Sala de Ensaio
14h – Oficina de Xilogravura - Facilitador: Sergio Magalhães (Itapajé/CE) – para o público a partir de 14 anos
14h – Oficina de Xilogravura - Facilitador: João Pedro do Juazeiro (Fortaleza/CE) - para o público a partir de 14 anos

Palco Cego Aderaldo
16h – Recital: Evaristo Geraldo da Silva (Alto Santo/CE), Lucarocas (Fortaleza/CE) e Arievaldo Viana (Caucaia/CE)
16h40 – Lançamentos da Cordelaria Flor da Serra com os poetas Arievaldo Vianna, Evaristo Geraldo da Silva, Auri Lopes, Marco Haurélio, Paiva Neves e Orlando Paiva.
17h – Declamação: Dideus Sales (Aracati/CE)
17h30min – Embolada: Marreco e convidado (Fortaleza/CE)
18h15min –“A grande peleja de Benedito com Guilherme Nobre” – Mestre Valdeck de Garanhuns (Guararema/SP)
19h15min – Mestre Chico Pedrosa (Olinda/PE)

19 de agosto (Sábado)
Teatro
14h – Palestra “A Literatura de Cordel no panorama brasileiro”
Palestrantes: Jorge Melo (São Paulo/SP), Marco Haurélio (São Paulo/SP), Oswald Barroso (Fortaleza/CE)
Mediação: Eduardo Macedo (Fortaleza/CE)

Sala de Ensaio:
14h – Oficina de Cordel - Facilitador: Rouxinol do Rinaré (Fortaleza/CE) - para o público a partir de 12 anos

Palco Cego Aderaldo:
15h – Recital: Antônio Francisco (Mossoró/RN)
16h – Tempo de Brincar (Sorocaba/SP)
17h – Declamação – Tiago Monteiro (Pocinhos/PB)
17h30min – Francine Maria (Ibiapina/CE)
18h – Show: Canto Cordel - Tião Simpatia (Fortaleza/CE)
18h50min – Eugênio Leandro (Limoeiro do Norte/CE)
19h10min – Mestre Bule-Bule (Camaçari/BA)

20 de agosto (Domingo)
Teatro
14h – Palestra “Cego Aderaldo, o trovador do Nordeste”
Exibição do Filme Cego Aderaldo – o Cantador e o Mito – Classificação: Livre
Palestrantes: Rosemberg Cariry (Fortaleza/CE), João Eudes Costa (Quixadá/CE) e Arievaldo Viana (Caucaia/CE)
Mediação: Poeta Orlando Queiroz (Quixadá/CE)

Palco Cego Aderaldo
16h – Chico Pedrosa (Olinda-PE) e Antônio Francisco (Mossoró/RN)
16h30min – Forró pé-de-serra: Kutuka a Burra (Fortaleza/CE)
17h – Canções de Viola: Antônio Jocélio (Fortaleza/CE)
17h30min – Marco Lucena (RJ) e Cacimba de Aluá (Fortaleza/CE)
18h30min – Show de Encerramento: Mestre Bule-Bule (Camaçari/BA)

EXPOSITORES:
1. ABLC (Rio de Janeiro/RJ)
2. AESTROFE (Fortaleza/CE)
3. Arievaldo Viana (Caucaia/CE)
4. CECORDEL (Fortaleza/CE)
5. Chico Pedrosa (Olinda/PE)
6. Cordelaria Flor da Serra (Fortaleza/CE)
7. Edições Patabego (Tauá/CE)
8. Editora Coqueiro (Olinda/PE)
9. Eduardo Macedo (Fortaleza/CE)
10. Evaristo Geraldo da Silva (Alto Santo/CE)
11. Francisco Melchiades (Fortaleza/CE)
12. Francorli (Juazeiro do Norte/CE)
13. Geraldo Amâncio (Fortaleza/CE)
14. Guilherme Nobre (Fortaleza/CE)
15. João Pedro do Juazeiro (Fortaleza/CE)
16. José Lourenço (Juazeiro do Norte/CE)
17. Jotabê (Fortaleza/CE)
18. Lucarocas (Fortaleza/CE)
19. Nonato Araújo (Fortaleza/CE)
20. Olegário Alfredo (Belo Horizonte/MG)
21. Regina Drozina (Guararema/SP)
22. Ricardo Evangelista (Belo Horizonte/MG)
23. Rouxinol do Rinaré (Fortaleza/CE)
24. Valdeck de Garanhuns (Guararema/SP)
25. Valentina Monteiro (Campina Grande/PB)
26. Tupynanquim Editora (Fortaleza/CE)

Serviço:
II FEIRA DO CORDEL BRASILEIRO
Local: CAIXA Cultural Fortaleza
Endereço: Av. Pessoa Anta, 287, Praia de Iracema
Data: De 17 a 20 de agosto de 2017
Horários: Quinta a sábado: 14 às 20h | Domingo: 14 às 19h
Classificação indicativa: Livre
GRATUITO

13 de junho de 2017

QUATRO FOLHETOS - POR ADERALDO LUCIANO


Quatro folhetos escolhidos por Aderaldo Luciano


O cordel brasileiro, a forma poética criada por Leandro Gomes de Barros, escreve um percurso histórico que se confunde com a República. No final do séc. XIX, Leandro cria o sistema que o definirá como pai do cordel. Todas as modalidades poéticas açambarcadas no cordel saíram do condão poético leandrino, inclusive as marcas gráficas que o definirão: o acróstico, a exortação, a invocação, a intercalação de estrofes, as três formas (epopeia, lírica e drama). A República vai se construindo e Leandro abandona as histórias de reis, donzelas e princesas, passa a criticar os costumes e lança o olhar crítico sobre nossa primeira revolução industrial, sem se afastar da política, defendendo o direito autoral, contaminado com a liberdade de expressão que se inaugura. Hoje, todos que escrevem cordel e se consideram poetas dessa senda, deveriam conhecer sua obra e reverenciar seus feitos, respeitando a tradição e dialogando com seus pares atuais. Diante desse quadro aponto quatro seguidores que merecem nosso olhar:

Medeiros Braga Braga, nascido em Nazarezinho, na Paraíba do Norte, vem desenvolvendo seu próprio sistema cordelístico, marcado pela formação política, pelo veio social mais engajado, trazendo para o cordel os temas políticos mais ligado às lutas sociais, às primeiras tentativas de criação de sociedades autossustentáveis, aos embates de classes e resistência dos pobres às investidas das elites. É o caso desse fato narrado em O Massacre Dos Trabalhadores do Sítio Caldeirão. Estruturada pela visão do beato José Lourenço, de Pilões de Dentro, no Brejo da Paraíba, a comunidade do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto obtém a bênção do Pe. Cícero para receber romeiros e abraçar os que quiserem fortalecer a irmandade messiânica no cariri cearense. Com a morte do Pe. Cícero, as terras são reivindicadas por fazendeiros e uma verdadeira guerra é empreendida aos trabalhadores, culminando com o bombardeio das terras, da lavoura e dos viventes. O beato foge para Pernambuco e o sonho da comunidade é desfeito. A história não se esgota no folheto e pede aprofundamento nos relatos históricos.

Allan Sales, nascido no Crato, no Ceará, mas radicado no Recife, onde, assim como Leandro, estreou sua pena poética, elegeu os temas políticos, a sátira política, a crítica pedagógica e o caminho ecológico como sua senda particular. Músico e cantador, aproveita o talento musical para dialogar com as marcas musicais do povo contidas na cantoria, no maracatu, no coco, no baião. Esse tema O Brasil Tem Tributo A Prestar À Matriz Africana Brasileira é um mote decassílabo desenvolvido em doze voltas, doze estrofes no estilo martelo, pertencente ao ritual estrófico da cantoria nordestina. Como o tema diz, é um relato crítico sobre as origens de nosso encanto religioso e sócio-cultural, centrado na participação africana, cuja matriz espraiou-se de norte a sul do país, marcada pelo elemento escravizado que nos fez herdar seus rituais, sua culinária, seus jogos, sua religião, mas também fez brotar todos os males sociais, nunca resolvidos e muitas vezes mais cultuados entre as elites culturais brasileiras. Como no caso do Caldeirão, de Medeiros Braga, o tema complexo exigirá viagens críticas mais agudas fora do folheto.

Eduardo Macedo, nascido em Fortaleza, em O Jangadeiro Voador, narra a lenda de Beijupirá, o valente guerreiro que domou as velas, as ondas, o mar e o vento, singrou a eternidade para realizar com as próprias mãos e o próprio corpo a travessia entre matéria e aura, entre natureza e poesia. Apresentando a saga do povo tremembé, tapuia de raiz, Macedo trabalha suas estrofes com maestria galgando degrau a degrau, como sói ser o cordel, percebendo o verso sem quebras, a acentuação bem orquestrada, como se o vento fosse seu consultor e o próprio Justiniano seu guia. Mas o leitor encontrará a história de amor entre o herói e Jandira, sua linda flor pequena, raptada pelo Vento, no sincretismo mais envolvente, remanescente das antigas epopeias clássicas, como a Eneida (Eneias e Éolo, o Deus do Vento) ou Os Lusíadas (Vasco da Gama e as procelas anunciadas pelo Velho do Restelo). Como os dois anteriores, a narrativa solicita um pouco mais de esforço histórico do leitor, funcionando como obra introdutória a nossas lendas mais autóctones.

Varneci Nascimento, baiano de Banzaê, referência do cordel baseado em São Paulo, nos apresenta em A Peleja De Aloncio Com Dezinho a página testemunhal de uma manifestação poética, pautada pelo improviso, mas, ao contrário de outras formas, anunciada durante o evento conhecido como "batalhão", um trabalho de mutirão para ajudar um sitiante com dificuldades em preparar suas terras para o plantio. Magnífica reconstrução poética, verdadeiro ensaio etnográfico, importantíssima página para os estudos culturais das comunidades rurais nordestinas, essa obra contém brilhantes construções estróficas, nas quais aparecem, logo no início, a consciência de um narrador conhecedor dos elementos teóricos da literatura, trazendo as diferenças entre narrar e descrever, mas refletindo sobre a impossibilidade do texto puro. Aliás o texto de Varneci,por ser uma peleja, contém elementos do drama, mas encontra um narrador e distribui formas líricas com brilhantismo. Da mesma forma, como nos três folhetos anteriores, o leitor é convocado a sair de seu centro e partir para a busca mais profunda, extra-folheto. 

Esses quatro senhores, Medeiros Braga, Allan Salles, Eduardo Macedo e Varneci Nascimento são herdeiros de nossa forma poética mais genuína, brasileira por gênese, universal por vocação, o cordel. Vivam os poetas! Perpetue-se a poesia! Permaneça o cordel, brasileiro!

Aderaldo Luciano é Professor, poeta, escritor e músico. Doutor e mestre em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além da sua produção poética, dedica-se à pesquisa e crítica do cordel brasileiro. 


2 de janeiro de 2017

CANTO VAQUEIRO



CANTO VAQUEIRO
Eduardo Macedo

Sertanejo forjado em aço
Desbravador da virgem caatinga
Seu destino é lida de gado
Cavalgador de escassos descampados
Guardião de vastos campos áridos

Sua armadura é couro espichado
O pau-de-ferro, a espada mourisca
Brame contra bois desgarrados
Encastelados em carrascais fechados
Ante muralhas de lajedos cortados

Autor e intérprete - Eduardo Macedo
Xilogravuras e fotos - Eduardo Macedo
Gravação de demonstração
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