16 de dezembro de 2012

CRÔNICA SOBRE O BOI MORRE-NÃO-MORRE

Crônica do poeta Marcos Mairton sobre o Boi Morre-Não-Morre, publicada no blogue http://mundocordel.blogspot.com.

"Eu havia chegado de viagem, quando vi na correspondência acumulada da semana um envelope amarelo que se destacava das malas diretas de final de ano e dos boletos bancários. Não só pelo peso e volume, mas principalmente por que meu nome e endereço estavam escritos à mão, e não em uma etiqueta impressa em série.

Era um livro. Um livro pequeno, com as dimensões de um folheto de cordel, exceto no que se refere ao número de páginas, cento e vinte ao todo. O conteúdo também era em cordel. Abri-o aleatoriamente e logo vi as setilhas.

Não havia lido uma página sequer, ouvi o telefone tocar. Deixei o livro ali mesmo, sobre a mesinha da sala e fui atender. Antes, olhei o remetente, dobrei o envelope e o enfiei entre as páginas do livro. “Quando lançar o meu próximo livro, retribuirei a gentileza do autor” – pensei.

Vida louca, essa do século XXI. Só hoje, quase uma semana depois, abri o livro novamente.

Quatro folhetos de cordel foram reunidos nele. Detive-me no primeiro, que dá título ao livro: “O Boi Morre-não morre”. Apropriada leitura para um domingo no qual algumas nuvens cinzentas pairam sobre o céu de Fortaleza, trazendo a esperança de que alguma chuva caia sobre o meu Ceará, ainda neste mês de dezembro.

E que bom seria se chovesse mesmo, não apenas em dezembro, mas por toda a chamada quadra invernosa de 2013. A seca está malvada por aqui. Li recentemente em um jornal que desde 1950 não havia uma dessas.

E, por mais que poetas como Eduardo Macedo façam o milagre de transformar em poesia o sofrimento causado pela seca no sertão, é sempre dolorido ler versos como os que abrem o a história do Boi Morre-não-morre:

Queima, o sol, sua brasa de matar.
Oprimindo, inclemente, causticante.
Sua espada de brilho rutilante
Golpeando, letal, a castigar.
Vendo a vida na terra evaporar,
O Boi, magro de fome e de esperança,
Sem ter vestígio d’água na lembrança,
Resolveu sua fuga empreender,
Para o solo rachado percorrer,
A fim de resgatar sua sustança.

Era um couro engelhado, era uma ossada,
Desidratado espécime de rês
Duma seca que já durava três
Anos sem ter sede saciada.
Olhos foscos na cara descarnada,
Chifres (chumbo!) na cabeça pendente,
Na bocarra esticada cada dente
Simulava um sorriso desgraçado –
Era o Boi renegando o triste fado,
Sem se entregar à morte, renitente.

Que bom seria, meu caro Eduardo, se nos próximos meses a inspiração chegasse a você por meio de grossos pingos de chuva caindo sobre a terra seca do sertão, enchendo os leitos dos rios e pintando de verde a caatinga!

Grato pelo livro que me presenteaste, envio-lhe o meu abraço e votos de sucesso!"

Veja a publicação e conheça a obra do poeta em http://mundocordel.blogspot.com.br/2012/12/livro-de-eduardo-macedo.html.

13 de dezembro de 2012

BRASÃO - BOI MORRE-NÃO-MORRE




Xilogravura do livro "O Boi Morre-Não-Morre". Brasão com escudo de couro espichado, com campo contendo o sol ao centro e ao alto, inclemente, e o Boi escanzelado na parte inferior, ao pé da aroeira desfolhada, com a morte representada por dois urubus à espreita sobre a galhada, de asas abertas para o derradeiro abraço. Na parte inferior à esquerda, o xiquexique, representando a vida latente catingueira, inabalável e rija; à direita, o cachorro esfomeado com a própria pata entre as mandíbulas, em seu desespero autofágico. Coroando o brasão, ranchos sertanejos e suas cercas de arame farpado, tendo à frente de si como timbre o triunfante canário-da-terra, representando a continuidade da vida. Gravura representativa, contém as principais cenas do poema.

1 de dezembro de 2012

O "BOI MORRE-NÃO-MORRE E OS PRIMEIROS FOLHETOS"



Um romance contemporâneo do ciclo do gado do Cordel, uma elegia à seca, uma fábula que retrata a morte e o renascer da vida na caatinga. O "Boi Morre-Não-Morre e os primeiros folhetos" traz a história dum boi moribundo que luta para permanecer vivo no sertão esturricado, assolado por uma sequência de estiagens severas. Abandonado num curral, vendo a cacimba secar, o bicho é obrigado a desabar pela mata cinza em busca duma fonte d'água a restaurar sua sustança. Nesta jornada se depara com a morte, com o desespero da fome, com vida latente catingueira e testemunha o belíssimo fenômeno do renascer da fauna e flora na caatinga. Além deste poema, o livro traz os três primeiros folhetos do autor revisados.

Abaixo trecho do Boi Morre-Não-Morre:

Num curral depauperado,
Padecendo à sede braba,
Escapava o Boi mirrado,
Ruminando a grossa baba.
O azul do céu, infinito,
Anunciava, bonito,
A seca que não se acaba.

De tão magro já voltara
Ao seu peso de garrote.
O chocalho pendurado
Pesava-lhe no cangote.
No juízo o desmantelo
Do fisiológico apelo
Martelava um triste mote.
Antes da seca medonha
O Boi no curral vivia
Junto com o parco gado
Que também no rancho havia,
Mais um casal camponês.
Na labuta, todos três,
Da caatinga subsistia.
Era bicho de trabalho.
Capado, manso, corpudo.
Puxava arado na roça,
Incansável e forçudo.
No carro de boi cangado
Levava pra todo lado
Gente, lenha, barro, tudo.
Porém, a peleja braba
Nasceu quando o marmeleiro
Enrolou-se na capoeira,
Na várzea e no tabuleiro.
Quando obrigou a estiagem
A conceder vassalagem
Ao sol o sertão inteiro.
(...)

Pastorando o cacimbão,
Olhando sobre a mureta,
Na superfície ele via
Refletida a silhueta.
Quanto mais o chão bebia
O nível d'água descia
Feito areia de ampulheta.
Nesta crucial contagem
O gado riscava o chão
Ao olhar a água descer
No fundo do cacimbão.
Sem poder beber, sedento,
O Boi sentia o tormento
De viver na sequidão.

Chegando ao fim da filtragem
O Boi viu no seco fundo
Só o barro enlameado
E, no sofrer mais profundo,
Deu um berro tão comprido,
Soltou tão alto mugido,
Que estrondou no mei' do mundo.

– Agora acabou-se tudo,
Agora acabou-se o rancho.
Sem forrage' e sem bebida,
Sem querer me desarrancho.
Vou caçar mei' de livrar
Minha vida. Vo' escapar,
Desabar pelos garrancho.
(...)

"O Boi Morre-Não-Morre e os primeiros folhetos", 120 páginas, edição ilustrada pelo autor.